
“O Natal sempre foi a festa que mais agitava minha infância, talvez pelas esperanças e expectativas que gerava. Até aos nove anos, Papai Noel representava para mim um herói. Era uma fantasia que servia a todas as crianças e que nos ajudava a ter nossos momentos de sonhos.
Em nossa casa, mamãe cumpria piedosamente os rituais dessa festa, como católica e como dona de casa. Tínhamos presépio, rezas, Papai Noel e café com bolo de tapioca. Não fazíamos ceia de meia-noite, com bebidas e comidas porque a essa hora já estávamos dorminddo.Só mamãe rezava debaixo do seu mosquiteiro. Quem saía de casa nessa noite ia para a missa ou para alguma festa. O que havia em família, em comemoração de Natal, era feito logo cedo, antes das onze, com a casa toda aberta, iluminada, os quartos crescidos, do tamanho da nossa ansiedade e cada um perambulando de um lado para outro, até a hora da reza, em torno do menino Jesus, que só, então,era posto no presépio, por um gesto solene de mamãe, acompanhado por todos, como em procissão.
A armação do presépio tornva-se a fest maior do Natal, pela expectativa e pelas atividades que exigia. Uns dias antes, cuidava eu(depois que os outros cresceram) de plantar arroz para enfeitar as laterais do presépio. Cuidávamos também de tinturar serragem de verde e espalhar pela extensão do presépio, para imitar o capim dos campos de Belém. Éramos tão comprometidos com essa atividade para se adaptar ao canto da parede da sala e sobre ela edificar o presépio. Quando me entendi, já encontrei essa mesa.
O nosso presépio era o mais bonito da redondeza. Para isso fazíamos a comparação, em visistas especiais às casas onde havia presépio. Eram verdadeiras visitas de espiões, feitas por mim, Zeca, Vera e Teixeira. Até o de Tia Maria não escapava às nossas críticas, para exaltarmos o nosso. Mas, afinal, tínhamos apenas três concorrentes: o de Dona Chiquinha, o de Tia Maria e o da casa de Paulo Carteiro.
Uma vez preparei um castelo medieval, feito de caixa vazia de Penicilina Squibb, para ornamentar o presépio.O resultado foi um incêndio no dia da inauguração. Esse fato está contado no meu primeiro livro, cujo título foi tirado desse episódio: O presépio queimado.
Nesse trabalho de armar o presépio contávamos com o auxílio da nossa vizinha Rosa Bacelar. Além do nosso trabalho, contribuía com o anjo que pendia do céu sobre choupana do Menino Jesus. Era um anjo cor-de-rosa, com as asas douradas, tocando trombeta, bem trabalhado, que se destacava no qudro geral do presépio, tornando-o mais real com representação do nascimento de Cristo. Logo que terminava o serviço de armação, mamãe dizia: Agora, Rosa, vai buscar teu anjo!
Em contraste com a grandeza do presépio, tínhamos ma árvore de Matal bem miúda, de pléstico verde, em forma de um pinheiro, com quatro lados, mediando uns trinta centímetros, com sinos coloridos que iam diminuindo de tamanho, à proporção que avançava para o topo. Em cima, um anjo, com uma trombeta branca anunciava a festa.
Acreditávamos com todo fervor em Papai Noel. Era ruim isso?Não. Alguns psicólogos condenam, outros defendem. A fé e a família justificam a conservação dessa instituição natalina. Vivíamos, graças à ansiedade dos presentes que esperávamos, um clima feliz na família, um clima de Natal que, até hoje, perdura e que procuramos transmitir aos filhos. Fazia minhas cartas para Papai Noel com convicção. Pedia o possível e o impossível. Lembro-me de uma delas, escrita para mim por Dona Zeíla, em que fazia uma série de pedidos mirabolantes. Ela copiava tudo e quando eu ia mostrar para mamãe esta ficava surpresa com o que lia, e quem sabe, com a presteza da amiga que alimentava os sonhos daquela criança.
Ali, naquela cidade limitada, qundo não sofriam os pais sem poderem atender às fantasias dos filhos! O comércio era restrito. Um irmão mais velho,Umberto, certa vez, armou a rede bem alta para receber um velocípede que não veio. Mamãe passou a noite angustiada. Onde haveria velocípede em Viana? Ocorria, com frequência, que Papai Noel se tornava pragmático e esquecia nossos sonhos para nos presentear com material escolar, o que levou, certa vez, um dos favorecidos a fazer pedrada dos cadernos e dos lápis, verberando o velhinho que desprezara seus pedidos.
Lá para o dia 6 de janeiro, ainda espichando o Natal, tínhamos visita do Pastoral de Anica Ramos, enchendo a noite e representando diante do presépio.
Com todos esses detalhes, o Natal era a melhor festa em família, cheia de histórias e alegrias, sonhos e felicidade.”(SEREJO, Lourival. DO ALTO DA MATRIZ(MEMÓRIAS), 3º capítulo, parte VI. 2ª edição. São Luís, Ética Editora, 2004).

Em destaque o autor do texto acima transcrito.
P.S: Longe de ser apologista de magistrados etc, devo dizer que a escolha desse trecho foi por mérito. Adoro o gênero “memórias” e no Maranhão obras assim são raras. Demais, o desembargador Lourival escreve muito bem. Esse livro, DO ALTO DA MATRIZ, é cheio de imagens e citações pertinentes.
Bom natal a todos.