A própósito do filme sobre Hannah Arendt

O que eu vi no cinema Lume foi uma cinebiografia da pensadora política alemã autora. Cinebiografias parecem filmes institucionais; apresentam enredo pobre, sendo preferível um documentário criativo a esse tipo de trabalho que parece “sessão da tarde”.

Aborda a vida de uma intelectual em seu melhor momento, antes do seu declínio.

Ofereceu-se (não é implicância, está no filme) a uma revista americana para cobrir o julgamento do Major Adolf Eichmann. Já havia escritos “Origens do Totalitarismo” e  “A Condição Humana”. Depois destes livros apenas se repetiu ao escrever sobre a natureza do mal.

Eu acredito que não existe mal absoluto. No filme a personagem chega a dizer mais ou menos o seguinte: os regimes totalitários só foram possíveis, porque partiram para um irracionalismo que não era humano. Eu discordo disto. Seria como dizer que Hitler era um inimputável.

Eu não acredito em monstros. Tudo na vida é regido por uma reação a uma ação; causa e efeito.

Hitler foi um político tosco, criminoso, como quase todos, que matou milhões, assim como Bush e tantos outros. Deveria ser julgado, mas se matou, juntamente com quase todos os líderes nazistas. Daí porque Hannah Arendt questiona a culpa coletiva que queria contabilizar a Eichmann.

A propósito, difícil esperar um julgamento justo de um vencido no território de um vencedor.

Em julgamentos criminais nos perguntamos se o acusado estava consciente do que ele fez, se ele podia entender e diferenciar entre o certo e o errado.

No final, o grau de culpa de uma pessoa é sempre determinado por suas circunstâncias.

Eichmann era apenas uma peça de uma longa engrenagem, para utilizar uma expressão da pensadora alemã.

Eu acredito que Arendt tentou entender a ação ou omissão do oficial alemão, porque também pode ter passado a vida toda tentando entender o que levou a Martin Heidegger a ter sido nazista. O filósofo foi amante da pensadora por anos a fio, o que foi retratado no filme.

Dizer que alguém tem culpa significa dizer que uma pessoa só poderá ser acusada pessoalmente.

Não há responsabilidade coletiva, não existe culpa herdada, e todo mundo tem direito à sua própria trajetória de vida.

Caso contrário poderá ocorrer vingança, a culpa e as coisas que continuarão a falhar. O risco do Estado vingativo, gerador de mais violências. Aconteceu em Nuremberg e se em cada julgamento do Tribunal Penal Internacional.

Acreditamos que estamos seguros, mas o oposto é verdadeiro: nós poderíamos perder nossa liberdade, mais uma vez. Aconteceu na Alemanha nazista, enfim, em todos os regimes de força.

Fazê-lo significaria perder tudo.

Essa é a nossa responsabilidade.

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