O desaparecimento de Rubens Paiva

Eu devia ter uns 15 anos quando li “Feliz Ano Velho”.

Um relato comovente de um jovem que ficou paraplégico na flor da idade. Um jovem rebelde, cheio de mágoas num período difícil para ser rebelde.

O drama familiar dos Rubens Paiva é digno de um filme.

Transcrevo reportagem do JN.

Uma versão sustentada por mais de 40 anos sobre o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva começa a ser desmontada. O Jornal Nacional teve acesso ao depoimento de um militar da reserva que diz ter participado de uma farsa criada pelo Exército. A reportagem é de Pedro Bassan.

O deputado Rubens Paiva, cassado logo depois do golpe militar de 1964, teve a casa invadida por homens armados no dia 20 de janeiro de 1971. Da praia do Leblon, ele foi levado para o quartel da 3ª Zona Aérea, onde, segundo todos os depoimentos colhidos até hoje, foi brutalmente espancando.

Muito ferido, ele foi levado para o DOI-CODI, na Zona Norte, o mais violento aparelho de repressão da ditadura. No dia seguinte, Rubens Paiva foi visto pela última vez com vida pelo médico Amílcar Lobo, que atendia os torturados. 

As investigações oficiais, feitas durante a ditadura, concluíram que Rubens Paiva tinha fugido.

Esta é a versão da fuga, que prevaleceu até hoje: na madrugada do dia 22 de janeiro, um capitão e dois sargentos levavam Rubens Paiva em um fusca para reconhecer uma casa suspeita.

No Alto da Boa Vista, o carro foi fechado por outros dois. Seis a oito supostos guerrilheiros atacaram e incendiaram o carro dos militares, que se abrigaram atrás de um muro. Rubens Paiva saiu do carro e se escondeu atrás de um poste. No meio do tiroteio, ele foi resgatado pelos guerrilheiros.

Como os três militares não perceberam que estavam sendo seguidos, em uma rua que àquela hora estava deserta? Como o deputado Rubens Paiva, que era alto e corpulento, conseguiu escapar rapidamente do banco traseiro de um fusca em chamas? Como ele atravessou duas vezes a linha de tiros, sem se ferir? No local nunca existiu nenhum muro onde os militares pudessem se abrigar.

Mesmo com tantas lacunas, incoerências e perguntas sem resposta, a história da fuga foi mantida por 43 anos. Mas o capitão que teria trazido o fusca até a curva revela que tudo não passou de uma farsa.

Hoje, Raymundo Ronaldo Campos é coronel reformado. Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade, ele disse que a ordem partiu do major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, que já morreu.

A ordem do major foi esta: “olha, você vai pegar o carro, levar em um ponto bem distante daqui, vai tocar fogo no carro para dizer que o carro foi interceptado por terroristas, e vem para cá”.

Tudo isso era para “justificar o desaparecimento de um prisioneiro”. O coronel Campos diz que “saiu do quartel sem saber o nome do preso político”, mas sabia que “a pessoa que deveria estar no carro morreu no interrogatório”.

Ele descreveu o que os militares fizeram “pararam o carro, abriram o tanque de gasolina e metralharam o carro, jogaram tiros para lá e para cá”, “mas o carro custou a pegar fogo, e foi preciso pegar um fósforo e jogarem dentro do tanque”.

O coronel Ronaldo chamou a farsa de “cineminha” ou um “teatro que foi montado às pressas”. Diz que “sempre guardou segredo sobre esses fatos” e que até hoje “amigos militares da reserva têm lhe recomendado que mantenha sempre o que disse no último inquérito, porque o Exército não vai ajudar em nada”.

O coronel Campos esclareceu a farsa da fuga, mas disse que nunca viu Rubens Paiva, “não foi informado de detalhes da morte do preso, e nada soube a respeito do destino do corpo”.

“Não há mais como, atualmente, o exército sustentar que Rubens Paiva desapareceu nestas condições. São estes dois objetivos. É decifrar esta cadeia de comando e encontrar o paradeiro, encontrar o local onde Rubens Paiva foi enterrado para dar paz à família de Rubens Paiva”, afirma Wadih Damous, pres. Comissão Est. Verdade – RJ.

“A gente agradece profundamente essa pessoa que no final da vida resolve fazer justiça e se diferenciar das pessoas que torturam, prendem, matam, e são cruéis em nome de um interesse”, comenta Vera Paiva, filha de Rubens Paiva.

“Se a gente quer dar um basta a isso tudo, se a gente quer criar um país com paz, harmonia, com civilidade, com direitos humanos respeitados, eu acho que recontando a história é um bom começo”, avalia Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens Paiva.

O Exército declarou que não comenta nenhum fato relacionado aos trabalhos da Comissão da Verdade.

 

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