Linchamentos

A classe média deu para fazer justiça com as próprias mãos. Diz que é porque há muita impunidade e o trabalhador está cansado de ser furtado, roubado, enfim, assaltado todos os dias.

Usa-se a palavra trabalhador, mesmo que o burguês revoltado viva de renda, de aluguéis, de rendimentos, de alguma herança, que o permita ficar em casa coçando… o saco de dinheiro do suor dos outros. O burguesinho adora usar a palavra trabalhador, generalizando, para parecer que é um deles.

Ainda que seja, todos esses linchamentos que têm acontecido, são atitudes covardes de uma classe que há muito tempo perdeu todos os valores morais de uma vida em comunidade.

A covardia, já dizia Montesquieu, é um defeito que nunca vem sozinho e, com relação aos novos justiceiros, pode-se dizer que é um defeito que nunca permanece sozinho também. O covarde nunca é só covarde, é egoísta, mau, cínico, falso, invejoso e tudo mais que pode acompanhar esse defeito inerente à pessoa que atira ou esfaqueia por trás.

Eles se juntam, todos bonitinhos, com seus sapatinhos de marca e reloginhos coloridos, e agridem, batem, amarram a pessoa que eles processaram, julgaram e condenaram ao pelourinho da praça pública do século XXI. Dez, quinze, vinte contra um, todos fortes só porque em maioria. Covardia maior impossível.

Por certo vão dizer que o assaltante é covarde também, contudo, apesar dessa concepção rasa do crime de roubo, nenhuma covardia justifica a outra.

Mas há uma coisa que esses covardes estão ignorando. A violência é uma só, covarde, valente, no claro, nas sombras, com maldade ou equilibrada, é uma só. A violência é uma forma de se comunicar para a qual a única resposta é mais violência.

O Estado, com suas polícias e judiciário, acusado de omissão e de permitir a impunidade de tantos assaltos, é o mesmo Estado que ignora desde o nascimento milhares de brasileiros. E os únicos que ainda acreditavam nesse Estado eram justamente esses da classe média, pois a alta não precisa dele, o manipula, e os pobres e miseráveis brasileiros nunca esperaram muita coisa dele mesmo.

O burguês médio era o exemplo, o símbolo de que o Estado estava lá, funcionando. Todos se guiavam nesse exemplo. Por isso um assaltante sabia que estava fazendo algo errado e, depois do assalto, corria para não ser preso.

Nossas leis, Constituição, cheias de direitos e garantias, fazem parte desse teatro que a classe média sempre encenou, sem interesse em mudar muita coisa, a não ser as suas próprias vantagens. O linchamento é a desistência do caminho político, é o teatro fechando na maior pancadaria. Entramos para uma peça sobre progresso da humanidade e estávamos assistindo a uma comédia. Um engodo, nada mais faz sentido.

Agora, sem Estado, sem ninguém mais acreditar no Estado, só poderemos contar com os números. Vamos voltar a andar em tribos para nos proteger, a covardia vai ser a regra para deixar de ser covardia. Os assaltantes não precisarão mais correr, desde que estejam em maior número.

Aí chegará a hora da verdade e o covarde pode sofrer, porque esses “valentes”, quando ficarem a sós, mano a mano, com um pobre e negro desses que estão sendo linchados, vão correr mais do que qualquer assaltante do passado. Fique e corra quem puder, o teatro está fechando.

Por Luís Carlos Valois

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