Crimes

A vida de qualquer pessoa pode mudar em um segundo.
Você pode ligar agora para sua casa e pode ser que sua esposa  não atenda ao telefone, e sim outro homem. Então o que você faria? Provavelmente iria até lá e tocaria a campainha e quando a porta abrisse perderia o controle e começaria a gritar. Do primeiro grito ao primeiro golpe haveria uma pequena distância, e do primeiro golpe à última facada, outra não tão grande como poderia parecer num primeiro momento.
O crime é como um jogo matemático. O que muda é a variação. Se existem cem coisas que se pode fazer quando se comete um assassinato, oitenta são más.
O crime perfeito ocorre cotidianamente. Da pequena sonegação fiscal, ao uso de um DVD ou programa de computador falsificado, enfim, a vida segue ainda que os pequenos e grandes delitos aumentam ou diminuam a cada dia.
Por outro lado, só dez por cento dos crimes são solucionados. E os que não são solucionados, como acidentes domésticos?
O crime perfeito é empurrar o marido enquanto ele coloca uma lâmpada. Ou levá-lo a uma excursão ou para um raly com os amigos no final de semana e cortar os freios do carro.
Todos nós podemos cair no chão, ninguém está a salvo do crime. Seja qual for o caso a maioria das pessoas sempre sente curiosidade pelos limites do ser humano. Se não a sentisse, se começasse a me aborrecer, não seguiria dedicando-me a isto.
Os escritores se preocupam com o assassino em série e não creio que os assassinos em série são mais interessantes.
A justiça não existe no mesmo sentido que existe a felicidade. Em um processo judicial, a primeira meta é a justiça, mas a primeira meta é a sentença. Um juiz, em um estado de direito, tem que prolatar sentenças. Não importa se são justas. O sistema foi criado para colocar fim numa querela. Tentamos ser justos, mas às vezes não conseguimos. O sistema de justiça soluciona os problemas de conveniência, e nesse sentido oferece uma justiça equiparada ao que a satisfação representa respectivamente à felicidade.
Como leitor já não sou fã de literatura policial. Li Hammett, Simenon e Chandler. Agora prefiro Tolstói e Cervantes, bem como Hemingway, Carver e Richard Ford. A maioria das histórias policiais, sobretudo as suecas, estão muito calcadas na realidade. Preocupam-se demais pelo assassino em série.
O mais interessante para mim, como advogado e escritor, são os pequenos crimes, aqueles que qualquer um pode cometer num momento de raiva, de desespero.
Os crimes perfeitos que deixam de ser perfeitos quando a polícia começa a investigar.
Porque volto a dizer: o crime é como um jogo matemático. O que muda é a variação. Se existem cem coisas que se pode fazer quando se comete um assassinato, oitenta são más. Não estamos acostumados a lidar com cadáveres.

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