Edifício London: TV pode exibir o que teatro e livro são proibidos de contar


Por Nelson de Sá

[Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S.Paulo desta sexta-feira (5/9)]

No dia 27 de abril de 2008, um domingo de Páscoa, foi ao ar a “encenação do crime”, como descreveu na época o Jornal Nacional.

A reconstituição do assassinato de Isabella Nardoni, 5 anos, ganhou transmissão ao vivo, entrou no meio do futebol, com seus próprios locutores e comentaristas, por redes como a Bandeirantes, a Record e a Globo.

No lugar da menina, uma boneca que teria custado mais de R$ 5 mil foi lançada da janela do sexto andar do edifício London por um policial que representava o papel de pai de Isabella.

Seis anos depois, uma juíza acaba de determinar, no relato da revista Consultor Jurídico, que “obras de ficção que usam fatos facilmente identificáveis após exposição na mídia violam o direito de privacidade, pois o público mediano’ não consegue separar licença poética’ de acontecimentos reais”.

A televisão aberta transmitiu a “encenação do crime” para dezenas de milhões, em grande parte crianças, mas teatro nenhum pode apresentar uma encenação da peça Edifício London.

Os 500 exemplares do livro também foram proibidos. E o dramaturgo Lucas Arantes foi condenado a pagar uma indenização de R$ 20 mil por danos morais.

Ápice da reconstituição do crime — ou “reprodução simulada do fato”, como prevista no Código de Processo Penal — a cena da boneca sendo lançada do edifício London também está no centro da ação movida contra a peça.

Em fevereiro do ano passado, quando a montagem foi proibida na véspera da estreia no Espaço dos Satyros, em São Paulo, foi essa também a alegação citada por um desembargador.

“Em verdadeira aberração”, no espetáculo seria “lançada uma boneca decapitada por uma janela, configurando violação à imagem” de Isabella Nardoni, apontou a liminar. Do cenotécnico aos atores, duas dezenas de profissionais foram diretamente afetados.

Já era então censura prévia, acrescida nesta semana do propósito expresso de proteger o público “mediano”, apontado como incapaz de distinguir entre fantasia e realidade.

Novamente: a “encenação do crime” via televisão alcançou dezenas de milhões, em grande parte crianças — estas, sim, ainda incapazes de separar fantasia e realidade. Mas a encenação de uma peça que trata o crime à luz de Shakespeare e Eurípides não pode alcançar algumas dezenas de adultos.

Paradoxalmente, o objetivo de Lucas Arantes com Edifício London era questionar a suposta realidade do “caso Isabella”, como narrada pelos apresentadores de televisão.

Tinha até personagem inspirado em José Luiz Datena e Marcelo Rezende. Tinha também uma cena crítica sobre a “reprodução simulada do fato” pelos policiais no dia 27 de abril de 2008.

Contestava, como descreveu o autor, a cobertura jornalística que “nos atinge de forma agressiva” e torna tudo superficial, até o assassinato de uma criança.

No final, o Apresentador, o Jornalista e outras alegorias canibalizavam, no escuro, em blecaute, o corpo da Menina. Foi essa peça de teatro que a Justiça proibiu de ser vista ou sequer lida.

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