Um MMA com Bolsonaro

A civilização nos foi domesticando a ponto de acharmos a violência dos “outros” algo abominável. A técnica, o direito, a ciência, tudo nos conduziria para alcançarmos o máximo de segurança. Câmeras, grades, cercas eletrificadas, leis, regulamentos, a imaginação do homem não tem limites e o horizonte é o engodo da sociedade perfeita.

O Esporte é uma das válvulas de escape dessa violência que nos é inerente, pois, afinal, somos animais. Tanto controle, tanto regulamento, acabou levando à criação de esportes cada vez mais violentos. Dar socos, chutes e torções no adversário não era suficiente, e se criou o MMA, sigla que significa que a luta é um misto de artes marciais, onde se pode dar socos, chutes e torções na mesma pessoa, no mesmo local, em um palco quadrado ou octogonal.

Ora, se é um misto de artes marciais, não é uma arte marcial. Dizem que é esporte, embora alguns, como é o meu caso, prefiram considerar esporte somente aquela prática desportiva que o avô pode praticar com o neto, o pai com o filho. De qualquer forma, tem regulamento, regras para amenizar a culpa do desejo de violência de nossa civilização.

O fato de não ser uma arte marcial é uma das coisas que mais me incomoda no MMA, pois o lutador acaba ficando sem referência de uma arte em especial, sem um mestre específico para ouvir e respeitar.

A propagação, a propaganda desse tipo de evento, transmitido em rede nacional, também contrasta com a falta de educação e a miséria da população que, sem outra perspectiva, acaba incapaz de compreender o fato de socos e chutes entre seres humano serem premiados com dinheiro.

As consequências disso tudo já se têm visto nas periferias, com lutas tidas como MMA sem qualquer garantias para os atletas, pessoas lesionadas gravemente, aleijadas, nada impedindo, se é que já não há, lutas mais violentas ainda, pois o que ganham esses lutadores pobres, que sonham em ser um Anderson Silva da vida, é uma miséria.

Tudo isso é dito sem desmerecer esses campeões brasileiros, verdadeiros guerreiros do ringue. O MMA, ainda que não seja esporte, é um espetáculo, com sua beleza e plasticidade próprias. Nossos campeões merecem o glamour e o status que conquistaram. O MMA é verdadeiramente uma realidade.

Independentemente da classificação, em qualquer luta nascem homens fortes e de personalidade. O encarar o adversário para um confronto, olhos nos olhos, sem os subterfúgios e as hipocrisias da sociedade atual, com o medo e o heroísmo de cada um a flor da pele, revelam o homem de verdade que está por trás de cada lutador.

Montesquieu, em seu célebre Espírito das Leis, dizia, quando se referia ao duelo, que quem fugia de uma luta merecia ser julgado culpado, porque um homem covarde nunca tem apenas aquele defeito. A covardia nunca está só, é um defeito que sempre vem acompanhado de outros.

Mas o duelo foi proibido. Não se pode mais, como na Idade Média, lutar pela honra de uma mulher, por exemplo. Ameaça, lesão corporal, são alguns crimes que podem ser imputados a quem resolver vingar uma agressão de um homem contra uma mulher.

Por isso, talvez não tenha aparecido um Homem quando esse tal de Bolsonaro resolveu agredir sua colega de parlamento, fazendo menção à possibilidade de poder ou não estuprá-la (a conveniência fica sempre na cabeça do estuprador). A nossa domesticação impediu que um Homem que estivesse perto dissesse àquele militar, com a violência proporcional às suas palavras, que não se pode humilhar ou agredir uma mulher, as mulheres brasileiras todas, daquela forma.

Um homem acostumado a vida toda a falar alto com uma arma na cintura pode não saber o valor de um debate, a importância de se respeitar regras no diálogo político. Mas não apareceu ninguém para colocá-lo no seu lugar. A ofensa daquele cidadão restou ecoando pelas paredes do nosso parlamento, talvez esperando mais um daqueles procedimentos administrativos, estes também instrumentos civilizatórios da “não violência”.

Ainda que merecesse, dizer a esse cidadão que se lhe quer dar um tapa na cara pode ser considerado um fato típico penal, uma ameaça. Mas, voilà: temos o MMA; onde se pode isso com regras, sem ser crime, tudo permitido. Portanto, senhor Bolsonaro, se és homem o suficiente para achincalhar uma mulher, que tal fazermos um MMA? Prometo respeitar as regras. Meus cabelos você já não poderá puxar mesmo, mordidas são proibidas, vedadas joelhadas quando estiveres de quatro.

Fonte:Luís Carlos Valois Mestre em direito penal pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Membro da Associação de Juízes para a Democracia – AJD, e porta-voz da LEAP (Law Enforcement Against Prohibition – Agentes da Lei contra a Proibição).

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