A sua, a nossa, a minha vulnerabilidade

A criminologia crítica chama de vulnerabilidade algumas das características que o profissional da área penal acaba adquirindo com o tempo. Alguns juízes se pensam deuses, pior, deuses penais, cheios de sentimento de vingança; o promotor, a palmatória do mundo; e o policial, o próprio Batman. Carregam em si toda a expectativa de raiva e rancor que a população nutre contra aquele que é apresentado como criminoso, e esquecem boa parte do que estudaram de garantias como o contraditório, a ampla defesa etc.

A população aplaude esses paladinos da justiça, mas, infelizmente, sem perceber que não existe “a população”, e que cada cidadão, integrante dessa população, quando se vê envolvido em um processo, não quer ser julgado por um juiz policial, nem quer encontrar na delegacia um mascarado.

Mas a vulnerabilidade não se encerra aí, ela pode vir com sofrimento, tristeza e dor também. Afinal, acompanhar a miséria humana do dia a dia da justiça penal não é fácil.

Em certa ocasião se noticiou que estavam fazendo pesquisa sobre a depressão nos juízes. Grande percentagem deles sofria desse mal do século, ou dos séculos. Mas logo me veio a indagação se a pesquisa não estava com o foco equivocado. Ao invés de se pesquisar os juízes com depressão, não se deveria pesquisar os juízes que não têm depressão? Os que não sentem nada? Talvez esses sejam mais perigosos para aqueles que, um dia, possam se ver respondendo a um processo, ou seja, retirados “da população”.

Sim, a frieza é uma das consequências da vulnerabilidade. Aconteceu comigo um episódio parecido nesse sentido. Chamado para acompanhar uma rebelião, fui à penitenciária saber o que estava acontecendo. Com o tempo, policiais para lá e para cá, fumaça, gritos de familiares na porta da prisão, sem saber como, lá estava eu servindo como negociador para o fim daquele motim.

Entre a administração do estabelecimento penal e a entrada dos pavilhões havia um pátio de mais ou menos uns vinte metros quadrados, e lá se posicionaram os policiais para falar com os presos amotinados. Escondidos atrás de uma coluna de concreto, ouvíamos os presos pedirem o que sempre pedem, comida que não fosse estragada, respeito para seus familiares, maior tempo de banho de sol e de visita.

Mas havia mortos. Os presos haviam invadido a área de “seguro” e matado todos os internos que lá estavam. A área de seguro é onde ficam ex-policiais que a polícia, tão zelosa de suas atividades, abandona quando flagrados em alguma grave falha (você policial, também pode ser excluído da “população”); onde ficam os considerados delatores e alguns outros condenados por crimes sexuais.

Como se vê, a área de seguro de uma prisão é quase como a enfermaria, basta colocar uma placa com os dizeres “área de seguro” e transformamos uma cela em área de seguro, basta escrever “enfermaria” em cima da porta de uma sala e temos um setor médico”. Mas seguro e assistência é o que se menos vê. Resultado: foram doze mortos.

Entre eles um dos casos mais pavorosos que já ouvi. Um preso, ex colaborador da polícia, foi amarrado em uma cadeira de dentista e torturado até a morte com uma furadeira de parede.

E lá estava eu pedindo para que parassem aquela chacina. Os piores presos, os verdadeiramente maus, sempre sobrevivem e ainda saem com bom comportamento, pela simples razão de que são eles que mandam.  Alguns desses negociam o fim da rebelião.

A outra coisa que marcou aquele dia, aliás, a que mais marcou, foi quando eu disse para uma autoridade qualquer que os presos só terminariam a rebelião se a imprensa estivesse presente. Então me disseram que tudo bem, desde que os presos entregassem todos os corpos antes, porque o político do momento não queria que a imprensa mostrasse os corpos enfileirados no chão. Nas palavras que me foram ditas na ocasião: “-não queremos transformar isso em um Carandiru”.

A partir de então fiquei negociando corpos. Estive durante oito horas naquele pequeno pátio com três, quatro, cinco corpos, até completar doze. Alguns mutilados, sem mão, sem dedo, cortados. O sangue se espalhava pelo chão e, por algum pudor que não sei explicar, ficávamos nos desviando daquelas poças vermelhas.

Durante muito tempo procurei em mim o efeito daquele dia, daquelas horas, pois, afinal, sou ser humano e tenho minhas vulnerabilidades. Mas só depois de alguns anos descobri ter perdido um prazer que sempre me foi caro. O de ouvir música. Depois daquele dia nunca mais consegui chegar em casa, sentar e, alienadamente, esquecendo do mundo, ouvir uma boa música.

Fonte: Luiz Carlos Valois.

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