Sobre um linchamento

 

Aldous Huxley nos alerta da pouca eficácia de uma ciência que não convence porque desligada dos fatos reais da vida. A ciência pura e simplesmente razão, sem considerar as emoções e paixões que, sabe-se por experiência, movem montanhas, tem eficácia limitada[1].

De qualquer forma, o autor reconhece a dificuldade de se encontrar episódios concretos, bem narrados, que tornem os argumentos científicos menos chatos, vamos dizer assim. Nesse caminho, pretendo contar um fato acontecido lá pelos idos de 1988.

Era um domingo, o ônibus vinha lotado porque tinha acabado de passar pelo Maracanã. Sentado na janela, nem vi quando começou o arrastão. Eram cinco ou seis que entraram pela porta de trás (isso sempre muda, mas, naquela época, no Rio de Janeiro, entrava-se por trás do ônibus e saía-se pela frente) e, mesmo sem armas, na força física e intimidação, levavam os pertences de todos.

Quando chegou a minha vez, um rapaz magro tentou puxar o meu relógio, mas eu o empurrei. Um outro veio por traz e bateu na minha cabeça, enquanto o primeiro definitivamente puxava o meu velho e cansado bobo.

Depois, assustado, fiquei olhando as coisas acontecerem. Aparentemente satisfeitos com o saque, os assaltantes começaram a sair do coletivo. Saiu o primeiro, o segundo, o terceiro, mas quando estava para sair o último, o motorista fechou a porta e arrancou, em uma manobra tão rápida que até hoje não sei se foi de propósito ou reflexo da profissão.

Esse último, o que ficou no ônibus, era um negro, talvez o mais magro de todos. Ele apanhou, caiu no chão e começaram a pular em cima dele. O ônibus inteiro, lotado de torcedores de Fluminense e Flamengo, agora unidos em um só propósito, pulava em cima daquele rapaz.

Quase 30 anos depois, lembro como se fosse hoje. O rapaz parecia morto, imóvel, quando a população, tricolor e rubro-negra, cansou e parou de pular em cima dele. Metade do seu corpo estava para baixo da escada e metade em cima, no início do corredor do ônibus.

Para mim – e acho que para todos no ônibus – ele estava realmente morto, mas eis que, quando o motorista parou no ponto seguinte, e abriu a porta, o rapaz saiu correndo como se estivesse largando para os cem metros da prova olímpica mais difícil de sua vida. Em segundos, ninguém mais o via, tinha se embreado na primeira viela escura, enquanto o ônibus seguia viagem.

Mais um daqueles crimes que não entram nas estatísticas. Ninguém desceu para fazer um B.O. e o linchamento tinha sido malsucedido, o linchado fugira. Malsucedido sim, pois, segundo Gabriel Tarde, citando Madame Staël em suas Considerações sobre a Revolução Francesa, o amor próprio irritado de uma coletividade “é a necessidade de matar”[2].

Até hoje as ciências tentam entender, também para tentar evitar, em vão, esses movimentos de massa verdadeiramente assassinos. Penso que o estudo de direitos humanos diminui a possibilidade de você, mesmo após um assalto, começar a pular feito um doido em cima da cabeça de uma pessoa.

Mas nem todos têm acesso ao estudo de direitos humanos. Alguns pensam até que direitos humanos é um senhorzinho de terno e gravata que só aparece para defender bandidos. Pois bem, o senhorzinho não estava naquele ônibus.

Os pacatos torcedores, que na manhã seguinte beijaram seus familiares e foram para os seus trabalhos orgulhosos, pulavam feito animais em cima de uma pessoa no dia anterior. De minha parte, sem tentar diminuir minha culpa, fiquei lá, parado, sentado, assistindo.

Por certo era um assaltante, mas o linchamento é e sempre será uma covardia. Quando se agride covardemente uma pessoa, a covardia anterior dessa pessoa não diminui a nossa própria covardia.

Alguns adeptos da frase “tá com pena, leva para casa”, linchadores em potencial, porque linchadores do argumento, estavam lá, pulando na cabeça de uma pessoa. E, repito, além de ilegal como o crime que ele pretende estar punindo, o linchamento é covardia.

Sensação de impunidade, descrença política, revolta contra as instituições, podem ser as causas do linchamento, como a falta de opção, o abandono legal e social, a miséria, podem ser as causas do assalto, a escolha é livre, mas ninguém pensa em diminuir o ódio para evitar violências como essas.

De minha parte, não pularia na cabeça de uma pessoa por causa de um relógio, embora, na época, sequer tinha estudado direitos humanos. Mas é Gabriel Tarde novamente que nos pode dar uma luz sobre o caminho a respeito de se evitar esses excessos de violência.

Diz ele que “a verdadeira multidão, aquela em que a eletrização por contato atinge o ponto mais elevado de rapidez e energia, é composta de pessoas em pé”[3], afirmando que as pessoas sentadas apenas em parte se constituem em uma multidão, para esse efeito do ódio.

Visitando o plenário da Câmara dos Deputados, um guia me disse que não havia cadeiras para todos os deputados, se todos fossem trabalhar no mesmo dia, coisa difícil, mas que realmente não havia cadeira para todos. O que pode explicar muitas dessas votações cheias de ódio, com os deputados em pé.

Portanto, sentar talvez seja um primeiro passo para a diminuição do ódio. No dia do linchamento, para não perder o lugar ou porque efetivamente apenas estavam sentados, como eu, ninguém levantou de seu lugar para pular na cabeça daquela pessoa.

Assim, antes de pensar em matar, sente-se.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s